Sustentabilidade: a tendência que veio para ficar

Melhores práticas socioambientais apresentam maior lucratividade e aumento significativo em seu valor de mercado a longo prazo.

Com certeza este é um dos tópicos mais importantes para todos os seguimentos: Sustentabilidade! Uma tendência que vem se transformando dia após dia e ganhando cada vez mais relevância e prioridade dentro do varejo e nas indústrias. Confira a seguir os principais insights, conteúdo desenvolvido pela área de Desenvolvimento Técnico e Inovação (DTI), da Amicci.

O que é sustentabilidade?
Muito se fala sobre sustentabilidade, porém você já parou para pensar no que ela significa? A associação mais rápida é o meio ambiente, porém a forma de se pensar em sustentabilidade se deu inicialmente por a maioria dos recursos utilizados hoje serem finitos e que se mantivermos os padrões de consumo atuais não teríamos mais esses meios.

O movimento ambientalista iniciou-se pelo fato social e pelas tragédias naturais, como as chuvas ácidas nos países nórdicos por volta de 1960 que trouxe a vida o livro Primavera Silenciosa, (Silent Spring, em inglês), publicado em 1962 pela bióloga Rachel Carson. Desde então, este movimento só aumentou e nos dias de hoje é quase impossível não se falar na sustentabilidade em casa, no comércio, na indústria etc.

Sustentabilidade nas empresas
Para os próximos anos, muitas empresas já possuem suas metas definidas quando falamos sobre sustentabilidade. Com emissão de relatórios anuais, grandes empresas estão comprometidas para que o tema vire um pilar da boas práticas, como a Unilever que assumiu o compromisso de zerar as emissões de todos os seus produtos até 2039 – o que envolve toda a cadeia das matérias-primas à venda, a empresa também promete ter uma cadeia livre de desmatamento para ingredientes como óleo de palma e cacau até 2023, usar embalagens 100% reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025 e trabalhar apenas com ingredientes biodegradáveis até 2030.

Fonte: Relatório Anual de Sustentabilidade de 2020

Outro exemplo é o Carrefour, que tem como principal base de sustentabilidade o “Desmatamento Zero” e o “Bem-estar animal”, no qual o foco está na adequação dos fornecedores e aprimoramento das boas práticas de manejo animal, em dezembro de 2020, a Companhia formalizou uma Política em relação ao tema, que reúne as condutas adotadas desde 2018 na cadeia de ovos e as iniciativas relacionadas às demais proteínas animais vendidas sob sua marca própria. Além disso, temos a economia circular que combate ao desperdício e promove a transição da economia linear para uma economia circular, por meio da redução, reutilização, recuperação, regeneração, reabsorção e reciclagem de materiais e de energia. Para atingir esse propósito, atua-se com uma plataforma que se dedica à três frentes: desperdício zero de alimentos, transformação de embalagens e gestão de resíduos.

Atualmente, é muito comum a prática das empresas serem voltadas a este tema, “O consumidor está disposto a pagar um prêmio. Entre 61% e 70% falaram que estariam dispostos a pagar a mais. É uma porcentagem considerável de pessoas que estão dispostas a pagar a mais”, enfatiza Carlos Capps, head de consultoria e serviços para as indústrias varejistas e produtos de consumo da IBM América Latina. O estudo, que entrevistou mais de 1,9 mil executivos globais de empresas de varejo e bens de consumo, vai a fundo e mostra que existem diversas ações de sustentabilidade. Afinal, 9 em cada 10 empresas afirmaram que trabalharão em várias iniciativas até o final de 2021.

Fonte: Relatório Anual de Sustentabilidade de 2020

O movimento conhecido como Agenda ESG (Environmental, Social and Governance), que significa “Ambiental, social e governança”, está em ascensão e as empresas que adotam as melhores práticas socioambientais apresentam maior lucratividade e aumento significado em seu valor de mercado ao longo prazo.

Ou seja, pessoas investem em títulos de empresas que tenham o desenvolvimento sustentável como uma bandeira. Em segundo lugar, a relação se estabelece a partir do momento em que os ESG e seus critérios objetivos ajudam a garantir a sustentabilidade das operações das empresas. Por exemplo, uma empresa que desenvolve políticas inclusivas, para que o seu quadro de funcionários seja mais diversos (governança), possui o selo de carbono zero (ambiental) e se preocupa com a saúde mental dos seus colaboradores (social), pode se considerar sustentável.

Lidl – Prémio de Sustentabilidade para Fornecedores

O varejista Lidl criou diversas ações de sustentabilidade para o seu negócio, um dos exemplos é o “Prêmio de Sustentabilidade para Fornecedores” que visa promover uma cultura de sustentabilidade ao longo de toda a sua cadeia de valor, de tornar as suas embalagens mais sustentáveis, e de incentivar a inovação sustentável, especialmente entre os seus fornecedores, reforçando o apoio à criação de soluções de embalagens sustentáveis e apoiando melhor o desenvolvimento destas soluções.

Outra ação da Lidl é o Eco-Score, que classificam os produtos e atribui um código de cores que varia de verde ‘A’ (baixo impacto) a vermelho ‘E’ (alto impacto). O objetivo é ajudar os compradores a entender melhor as consequências ambientais avaliando de forma independente uma série de fatores, incluindo embalagens, métodos de produção, impacto na biodiversidade e pegada de carbono. Os produtos também recebem melhores pontuações quando são certificados por esquemas de terceiros, como Fairtrade e Rainforest Alliance.

Novo sistema de rotulagem de semáforos em lojas escocesas da Lidl

De acordo com o Walmart, “Entendemos que para um negócio durar, ele deve ter uma razão de ser fundamental – que se encontra no valor que cria não só para os acionistas, mas para o mundo. É por isso que, há mais de 15 anos, o Walmart colabora com outros para gerar um impacto positivo nas cadeias de suprimentos globais. Nosso foco em clima, natureza, resíduos e pessoas nas cadeias de suprimentos fortaleceu nossos negócios e comunidades de maneiras mensuráveis.”

Walmart Sustainability Hub

Um exemplo é que partir de julho de 2020, alcançando um aspecto-chave da meta original com anos de antecedência, o Walmart está se movendo para adquirir atum enlatado Great Value, sua marca própria, em suas lojas nos EUA com o certificado Marine Stewardship Council (MSC) ou, com base em relatórios de fornecedores, vinculado ao Projeto de Melhoria da Pesca (FIP) trabalhando ativamente para a certificação. O MSC Fisheries Standard tem três princípios fundamentais que toda pescaria deve atender: estoques de peixes sustentáveis, impacto ambiental mínimo e gestão eficaz da pesca.

Desenvolvimento sustentável
“Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras em satisfazer suas próprias necessidades.”

Relatório CMMAD

De acordo com o Laboratório de Sustentabilidade (LASSU), da Universidade de São Paulo (USP), os três pilares da sustentabilidade constituem-se nos aspectos ambientais, econômicos e sociais que devem se inter-relacionar de forma abrangente com o objetivo de atender ao conceito do mesmo:

Ambiental
Assegura que o meio ambiente tenhas condições de se autorregenerar, respeitando todos os limites do ecossistema e quando sua impossibilidade, implementar maneiras de compensação ambiental.

Econômico
Busca por formas de reduzir o consumo de recursos naturais, em especial os fósseis de energia e água, sem comprometer o crescimento econômico.

Social
Comtempla as condições para que todas as pessoas tenham os recursos necessários para uma vida saudável e de boa qualidade, buscando a redução ou erradicação da pobreza

Vinte e três anos depois da Eco-92, em 2015, a ONU voltou a reunir as lideranças mundiais para a implementação da Agenda 2030, um novo acordo em que foram definidos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) a serem cumpridos até o final da terceira década do século, um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima, e garantir que as pessoas em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade. Estes são os objetivos para os quais as Nações Unidas estão contribuindo a fim de que possamos atingir a Agenda 2030 no Brasil.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, ONU

Com base nos pilares do desenvolvimento sustentável, é possível desenvolver ações nos âmbitos pessoal, comunitário e global, sendo elas capazes de minimizar os impactos negativos provocados pelo homem. Nesse contexto, o desenvolvimento de programas educacionais voltados à educação ambiental é de extrema importância, além de conscientizar as pessoas a respeito dos graves problemas acerca do tema sustentabilidade, é possível prover soluções a essas questões, que necessariamente devem integrar os aspectos ambiental, econômico e social.

Visão de um especialista

Em uma entrevista com o Mercado Eletrônico, o especialista em supply chain management e professor do módulo Sustentabilidade no curso de Gestão estratégica de Compras da FIA (Fundação Instituto de Administração), Eduardo Sanches compartilhou um pouco da sua visão sobre sustentabilidade na atualidade.

Como preparar o fornecedor para atender com um produto inovador?
“A sustentabilidade está muito relacionada ao quão inovador você é no mercado. Porter dizia que para sobreviver nos negócios “ou você é mais barato ou você é diferente”. Mas hoje todo mundo tem que ser competitivo e inovador, não tem como escolher. O princípio de governança do relacionamento com os fornecedores precisa ter uma visão de médio e longo prazo do impacto que o fornecedor pode trazer para o seu modelo de negócio.
Como isso está relacionado à inovação? Eu posso inovar nos meus produtos, por exemplo, de várias formas. Posso fazer um briefing para o meu fornecedor e ele me ajudar a desenvolver um produto. Posso também desafiar o mercado com algo que ele esteja buscando e ter uma relação muito próxima com os meus fornecedores, não só uma relação transacional, mas um compartilhamento da estratégia, um entendimento das capacidades que o meu fornecedor tem do ponto de vista tecnológico.

Exemplo prático
Estou decidindo qual embalagem eu vou usar para um novo produto. Tenho dois fornecedores e preciso entender qual é a estrutura de pesquisa e desenvolvimento de cada um e seus equipamentos.

Eduardo Sanches

Não faz muito sentido entender a relação a médio e longo prazo, se eu escolher um fornecedor mais barato ou que tem um custo mais competitivo em detrimento de um que vai estar até mais caro, mas tem laboratório de pesquisa no Brasil e traz várias inovações interessantes e processos colaborativos. O olhar do custo tem que estar mais atento ao presente líquido do que no custo propriamente dito.
É aí que entra a inovação, pois preciso ser rápido e trazer uma receita futura, antes que ela possa existir. Essa é uma questão lógica, pois estou tomando uma decisão de compra, pensando que terei a receita maior.” Eduardo Sanches, Mercado Eletrônico 2018

Como eu incorporo fatores de sustentabilidade no ciclo de relacionamento com meu fornecedor?
“É possível ir, aos poucos, evoluindo o nível de maturidade da gestão dos fornecedores. Vamos supor que o fornecedor atende aos meus requisitos, ele foi homologado e qualificado, aí vou tomar uma decisão de compras no processo concorrencial. Nesse momento, também posso pedir para os fornecedores responderem aspectos sobre a estrutura de inovação, como ele gerencia seus resíduos, a água, como ele investe na educação de seus colaboradores, e eu coloco isso como elementos ou critérios de decisão, o que seriam as decisões multicritérios.
Imagine o impacto se eu falar para o fornecedor que ele é competitivo, mas que tem outro fornecedor com um preço muito parecido, que investiu em um laboratório de pesquisa e desenvolvimento no Brasil, e possui uma tecnologia de produção que consegue fazer o mesmo produto usando 50% menos água? Você promove uma competitividade no sentido amplo, onde o negócio precisa olhar para outros aspectos além do econômico. Para mim, isso é ser competitivo dentro desse novo contexto.
Eu acho que existe um desafio para as empresas, não somente do ponto de vista estratégico e de negócios. O profissional de compras precisa adotar um processo decisório, que envolve muitas informações de fornecedores, de maneira coerente com a minha política e discurso. A ideia é influenciar a minha cadeia para trabalhar de forma sustentável.” Eduardo Sanches, Mercado Eletrônico 2018.

Redação: Amicci, área de Desenvolvimento Técnico e Inovação (DTI)

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